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sábado, 4 de novembro de 2017

Darcy Ribeiro e o Povo Brasileiro

Logo na introdução, Darcy Ribeiro desfaz o mito da integração racial pacífica. Segundo ele a unidade nacional resultou de “...um processo continuado e violento de unificação política, logrado mediante um esforço deliberado de supressão de toda identidade étnica discrepante e de repressão e opressão de toda tendência virtualmente separatista.” Portanto, esqueça todas as belas e possivelmente inverídica palavras que você já leu sobre este país. O Brasil não foi palco nem de uma farsa, nem de uma comédia, mas de uma tragédia.


Por baixo da aparente “...uniformidade cultural brasileira, esconde-se uma profunda discrepância, gerada pelo tipo de estratificação que o processo de formação nacional produziu. O antagonismo classista que corresponde a toda estratificação social aqui se exacerba, para opor uma estreitíssima camada privilegiada ao grosso da população, fazendo as distâncias sociais mais intransponíveis que as diferenças raciais.”


Em razão deste processo “...as elites dirigentes, primeiro lusitanas, depois luso-brasileiras e, afinal, brasileiras, viveram sempre e vivem ainda sob o pavor pânico do alçamento das classes oprimidas.” O Brasil não é um país de oportunidades. A mobilidade social é praticamente inexistente. “O mais grave é que esse abismo não conduz a conflitos tendentes a transpô-lo, porque se cristalizaram num ‘modus vivendi’ que aparta os ricos dos pobres, como se fossem castas e guetos. Os privilegiados simplesmente se isolam numa barreira de indiferença com a sina dos pobres, cuja miséria repugnante procuram ignorar ou ocultar numa espécie de miopia social, que perpetua a alteridade. O povo massa, sofrido e perplexo, vê a ordem social como um sistema sagrado que privilegia uma minoria contemplada por Deus, à qual tudo é consentido e concedido.”


Um exemplo claro de como as desigualdades originais ainda ecoam e são reforçadas na sociedade brasileira pode ser visto todos os dias nos telejornais. Se alguém da classe rica morre a cobertura jornalística é intensa, dramática e individualiza detalhadamente a vítima. O morto tem direito à uma história, sua perda é lamentada em função daquilo que ainda estaria em condição de realizar.


Quando os pobres são abatidos como moscas nos conflitos entre policiais e traficantes a imprensa relata apenas o que considera essencial: “conflito no morro do Alemão fez 19 vitimas”. Recentemente, no horário nobre, a Rede Globo despretensiosamente assumiu a versão de que “todos os 19 mortos no morro do Alemão eram criminosos”. Ao contrário do janota, os pobres não têm história. E apesar da CF88 prescrever que todos são iguais perante a Lei, a imprensa nega aos pobres brasileiros o direito de serem considerados honestos,  processados e condenados pelo Poder Judiciário ao invés de abatidos como animais. A mídia transforma a pobreza em crime e reforça esta idéia nos expectadores pobres.


No primeiro capítulo, Darcy nos dá um panorama do Novo Mundo. E nos diz o que poucos tem dito “...só temos o testemunho de um dos protagonistas, o invasor. Ele é quem nos fala de suas façanhas. É ele também, quem relata o que decidiu aos índios e negros, raramente lhes dando a palavra de registro de suas próprias falas. O que a documentação copiosíssima nos conta é a versão do dominador.”


No segundo capítulo, o autor trata da gestação ética, ou seja, do processo de fusão das matrizes indígena, negra e lusitana. “Custando uma quita parte do preço de um negro importado, o índio cativo se converteu no escravo dos pobres, numa sociedade em que os europeus deixaram de fazer qualquer trabalho manual. Toda tarefa cansativa, fora do eito privilegiado da economia de exportação, que cabia aos negros, recaía sobre o índio.” É interessante notar que a legislação colonial proibia expressamente a escravização do gentio. Mas então como agora os privilegiados não eram lá muito legalistas.


À medida que os portugueses faziam filhos nas negras e índias, uma nação de mestiças foi sendo criada. “Os brasilíndios ou mamelucos paulistas foram vítimas de duas rejeições drásticas. A dos pais, com quem queriam identificar-se, mas que os viam como impuros filhos da terra, aproveitavam bem seu trabalho quando meninos e rapazes e, depois, os integravam a suas bandeiras, onde muitos deles fizeram carreira. A segunda rejeição era do gentio materno. Na concepção dos índios, a mulher é um simples saco em que o macho deposita a semente. Quem nasce é o filho do pai, e não da mãe, assim visto pelos índios. Não podendo identificar-se com uns nem com outros de seus ancestrais, que o rejeitavam, o mameluco caía numa terra de ninguém, a partir da qual constrói sua identidade de brasileiro.”


Nem todas as tribos indígenas tiveram o mesmo destino. Algumas foram exterminadas em razão de serem hostis. Outras fugiram para o interior. Outras, ainda, foram desmanteladas nos descimentos. À medida que o gentio do litoral se tornava escasso, os colonos e seus mamelucos capturavam índios das mais diversas origens culturais e lingüísticas no interior e os reuniam em grandes aldeamentos próximos ao litoral onde ficavam à disposição para serem escravizados e catequizados. Mas alguns “...grupos tribais, ainda que conscritos à economia colonial, lograram manter certa autonomia na qualidade de aliados dos brancos para suas guerras contra outros índios. O relevante neste caso é que, em lugar de amadurecerem para a civilização - passando progressivamente da condição tribal à nacional, da aldeia à vila, como supuseram tantos historiadores - , esses núcleos autônomos permaneceram irredutivelmente indígenas ou simplesmente se extinguiram pela morte de seus integrantes.”


Algum tempo depois de consolidar a ocupação do litoral, os portugueses começaram a trazer os negros africanos para a lida nos engenhos de açúcar. “A diversidade lingüística e cultural dos contingentes negros introduzidos no Brasil, somada a essas hostilidades recíprocas que eles traziam da África e à política de evitar a concentração de escravos oriundos de uma mesma etnia, nas mesmas propriedades, e até nos mesmos navios negreiros, impediu a formação de núcleos solidários que retivessem o patrimônio cultural africano.” Portanto, o processo de destruição das culturas indígenas e negras foi bastante semelhante.


Ribeiro descreve em detalhes o empreendimento colonial. “A empresa escravista, fundada na apropriação de seres humanos através da violência mais crua e de coerção permanente, exercida através dos castigos mais atrozes, atua como uma mó desumanizadora e deculturadora de eficácia incomparável. Submetido a essa compressão, qualquer povo é desapropriado de si, deixando de ser ele próprio, primeiro, para ser ninguém ao ver-se reduzido a uma condição de bem semovente, como um animal de carga; depois, para ser de outro, quando transfigurado etnicamente na linha consentida pelo senhor, que é a mais compatível com a preservação dos seus interesses.”


Apoiado em vasta literatura, Darcy Ribeiro informa que o “...tupi foi a língua materna desses neobrasileiros até meados do século XVIII.” Sobre o nome Brasil esclarece que velhas “...cartas do mar oceano traziam registros de uma ilha Brasil referida provavelmente por pescadores ibéricos que andavam a cata de bacalhau...”. Portanto, não foi o Pau Brasil que deu o nome ao país. O mais provável é que os habitantes da terra que utilizavam o nome Brasil o tenham atribuído à arvore que constituiu a primeira grande matéria prima extraída do Novo Mundo.


Apesar da carência de registros genuinamente indígenas (ou seja, produzidos pelos índios), o autor sustenta que “...o Brasil é a realização derradeira e penosa dessas gentes tupis, chegadas à costa atlântica um ou dois séculos antes dos portugueses, e que, desfeitas e transfiguradas, vieram dar no que somos: latinos tardios de além-mar, amorenados na fusão com brancos e com pretos, deculturados das tradições de suas matrizes ancestrais, mas carregando sobrevivências delas que ajudam a nos contrastar tanto com os lusitanos.”


A tese de Dacy Ribeiro se coaduna com a toponímia tupi que foi preservada pelos brasileiros. Quase todos os nomes das localidades, rios, acidentes do terreno, etc. na costa ou próximo da costa são de origem Tupi. Quando subiram a serra através dos “peabirús” (caminhos de índio que já existiam antes de 1500) os portugueses chegaram a “Piratininga“, aldeamento provisório próximo aos rios “tietê” e “tamanduateí”.


Sempre bastante cuidadoso o autor afirma que o “...surgimento de uma etnia brasileira, inclusiva, que possa envolver a gente variada que aqui se juntou, passa tanto pela anulação das identificações étnicas de índios, africanos e europeus, como pela diferenciação entre as várias formas de mestiçagem, como os mulatos (negros com brancos), caboclos (brancos com índios) e curibocas (negros com índios).”


O nascimento da consciência brasileira remonta a Gregório de Matos (1633-1696). Os textos de Anchieta, Nóbrega e outros letrados foram desconsiderados porque eles se identificavam mais com a etnia do colonizador do que com a gente da terra. Já Gregório de Matos zombava da nobreza baiana usando uma perspectiva que o aproximava mais dos habitantes nativos.


“A historieta clássica, tão querida dos historiadores, segundo a qual os índios foram amadurecendo para a civilização de forma que cada aldeia foi se convertendo em vila, é absolutamente inautêntica.” Segundo Darcy Ribeiro o “...índio é irredutível em sua identificação étnica, tal como ocorre com o cigano ou com o judeu. Mais perseguição só os afunda mais convictamente dentro de si mesmos.” Sendo assim, a incorporação dos índios ao patrimônio nacional “...só se faz no plano biológico e mediante o processo, tantas vezes referido, de gestação de mamelucos, filhos do dominador com as mulheres desgarradas de sua tribo, que se identificavam com o pai e se somavam ao grupo paterno.”


Um pouco mais adiante o autor dá detalhes escabrosos do tráfico negreiro. O contingente de negros incorporados ao empreendimento colonial era 30.000 em 1600; quantia esta que subiu para 1.500.000 em 1800. Darcy Ribeiro frisa, entretanto, que é difícil quantificar o total de negros que foram trazidos ao Brasil. Mas alerta que “...os concessionários reais do tráfico negreiro tiveram um dos negócios mais sólidos da colônia, que duraria três séculos, permitindo-lhes transladar milhões de africanos ao Brasil e, deste modo, absolver a maior parcela do rendimento das empresas açucareiras, auríferas, de algodão, de tabaco, de cacau e de café, que era o custo da mão-de-obra escrava.“ Aos negros devemos não só a construção das cidades coloniais, mas a introdução das técnicas de mineração. Em razão de seus cálculos, o autor concluiu que “um total de 6.352.000 escravos <foram> importados entre 1540 e 1860.”


O terceiro capítulo do livro é simplesmente primoroso. Usando uma escrita envolvente e absolutamente envolvente, Dacy Ribeiro narra as Guerras do Brasil e os descaminhos da Empresa Brasil. “O conflito interétnico se processo no curso de um movimento secular de sucessão ecológica entre a população original do território e o invasor que fustiga a fim de implantar um novo tipo de economia e sociedade. Trata-se, por conseguinte, de uma guerra de extermínio.” Os capítulos desta guerra são conhecidos: guerra entre portugueses e índios que não aceitaram o jugo luso (Revolta dos Tamoios); guerra entre colonos e jesuítas que defendiam os índios; guerras entre lusitanos e caboclos (Cabanos); guerra entre negros fugidos e senhores de escravos (Palmares) e guerras entre pobres e fazendeiros (Canudos).


Todos os conflitos referidos e detalhados pelo autor tinham um único propósito: possibilitar a exploração da Empresa Brasil. “No plano econômico, o Brasil é produto da implantação e da interação de quatro ordens de ação empresarial, com distintas funções, variadas formas de recrutamento da mão-de-obra e diferentes graus de rentabilidade. A principal delas, por sua alta eficácia operativa, foi a empresa escravista, dedicada seja à produção de açúcar, seja à mineração de ouro, ambas baseadas na força de trabalho importada da África. A segunda, também de grande êxito, foi a empresa comunitária jesuítica, fundada na mão-de-obra servil dos índios. Embora sucumbisse na competição com a primeiro, e nos conflitos com o sistema colonial, também alcançou notável importância e prosperidade. A terceira, de rentabilidade muito menor, inexpressiva como fonte de enriquecimento, mas de alcance social substancialmente maior, foi a multiplicidade de microempresas de produção de gêneros de subsistência e de criação de gado, baseada em diferentes formas de aliciamento de mão-de-obra, que iam de formas espúrias de parceria até a escravização do indígena, crua ou disfarçada.”


Um pouco mais adiante, o autor esclarece que sobre as três esferas empresariais “... pairava, dominadora, uma quarta, constituída pelo núcleo portuário de banqueiros, armadores e comerciantes de importação e exportação.” Ninguém deve estranhar a semelhança entre o Brasil deste início de século XXI e o descrito por Darcy Ribeiro. O setor bancário ocupa o topo da pirâmide econômica (auferindo da União 150 bilhões de juros ano), logo abaixo vem o agronegócio voltado para a exportação baseado no latifúndio produtivo, em que a produção mecanizada é complementada pelo trabalho braçal remunerado com salários baixíssimos. A grande maioria dos brasileiros de hoje é paupérrima, exatamente como foram seus antepassados.


A ocupação territorial posterior à invasão lusitana ocorreu em função da exploração econômica colonial. Até bem pouco tempo a urbanização era incipiente. “As cidades e vilas da rede colonial, correspondentes à civilização agrária, eram, essencialmente, centros de dominação colonial criados, muitas vezes, por ato expresso da Coroa para defesa da Costa, como Salvador, Rio de Janeiro, São Luis, Belém, Florianópolis e outras.” O interior foi ocupado lenta e paulatinamente em função da necessidade de obtenção de mão-de-obra indígena, da incorporação de novas áreas à exploração comercial e a busca de ouro, prata e pedras preciosas. Durante vários séculos o Brasil foi um país essencialmente agrário. A intensificação da urbanização ocorreu apenas no século XX e mesmo assim não acarretou uma substancial modificação da estrutura sócio-econômica.


“Em nossos dias, o principal problema brasileiro é atender essa imensa massa urbana que, não podendo ser exportada, como fez a Europa, deve ser reassentada aqui. Está se alcançando, afinal, a consciência de que não é mais possível deixar a população morrendo de fome e se trucidando na violência, nem a infância entregue ao vício e a delinqüência e à prostituição. O sentimento generalizado é de que precisamos tornar nossa sociedade responsável pelas crianças e anciãos. Isso só se alcançará através da garantia de pleno emprego, que supõe uma reestruturação agrária, porque ali é onde mais se pode multiplicar as oportunidades de trabalho.”


Estas palavras otimistas devem ter soado mal ao próprio autor. No parágrafo seguinte ele acrescenta que não “...há nenhum indício, porém, de que isso se alcance. A ordem social brasileira, fundada no latifúndio e no direito implícito de ter e manter a terra improdutiva, é tão fervorosamente defendido pela classe política e pelas instituições do governo que isso se torna impraticável.”


Dacy Ribeiro faz uma longa dissertação sobre a deterioração urbana e alerta. “Hoje em dia é o crime organizado como grande negócio que cumpre o encargo de viciar e satisfazer o vício de 1 milhão de drogados. Quem quiser acabar com o crime organizado, deve conter o subsídio ao vício dado pelos norte-americanos.”


Após dar detalhes sobre cada uma das classes sociais brasileiras o autor frisa que essa “...estrutura de classes engloba e organiza todo o povo, operando como um sistema autoperpetuante da ordem social vigente. Seu comando natural são as classes dominantes. Seus setores mais dinâmicos as classes intermediárias. Seu núcleo mais combativo, as classes urbanas. E seu componente majoritário são as classes oprimidas, só capazes de explosões catárticas ou de expressão indireta de sua revolta. Geralmente estão resignadas com seu destino, apesar da miserabilidade em que vivem, e por sua incapacidade de organizar-se e enfrentar os donos do poder.”


A distância entre as classes ricas e as pobres sempre foram e ainda são abissais no Brasil. “Essas diferenças sociais são remarcadas pela atitude de fria indiferença com que as classes dominantes olham para esse depósito de miseráveis, de onde retiram a força de trabalho de que necessitam.” Em seus estudos e pesquisas Darcy Ribeiro notou que a “...classe dominante bifurcou sua conduta em dois estilos contrapostos. Um, presidido pela mais viva cordialidade nas relações com seus pares; outro, remarcado pelo descaso no trato com os que lhe são socialmente inferiores.”


Em razão da mestiçagem “...mais do que preconceitos de raça ou de cor, têm os brasileiros arraigado preconceitos de classe. As enormes distâncias sociais que medeiam entre pobres e remediados, não apenas em função de suas posses mas também pelo seu grau de integração no estilo dos grupos privilegiados - como analfabetos ou letrados, como detentores de um saber vulgar transmitido oralmente ou de um saber moderno, como herdeiros da tradição folclórica ou do patrimônio cultural erudito, como descendentes de famílias bem situadas ou de origem humilde - opõe pobres e ricos muito mais do que negros e brancos.”


Quando chegam ao Brasil a partir do final do século XIX os imigrantes europeus encontram um país socialmente estruturado em todo território nacional. Sua única opção foi a integração cultural e, em razão dela, a paulatina miscigenação. “Não ocorre no Brasil, por conseguinte, nada parecido com o que sucedeu nos países rio-platenses, onde uma etnia original numericamente pequena foi submetida por massas de imigrantes que, representando quatro quintos do total, imprimiram uma fisionomia nova, caracteristicamente européia, à sociedade e à cultura nacional, transfigurando-os de povos novos em povos transplantados.”


Apesar de algum dinamismo econômico o Brasil não deslancha em razão da preservação de sua arcaica estrutura sócio-cultural. A oposição entre os interesses do patronato empresarial, de ontem e de hoje, e os interesses do povo brasileiro” freiam o pleno desenvolvimento do país. Segundo Darcy Ribeiro as classes dirigentes brasileiras são muito parecidas aos consulados romanos, pois ao longo de séculos tem agido “...como representantes locais de um poder externo, primeiro colonial, depois imperialista, a que servem como agentes devotados e de quem tiram sua força impositiva.” Em razão deste característica consular a elite econômico-financeira do Brasil não se sente responsável “... pelo destino da população que, a seus olhos, não constitui um povo, mas uma força de trabalho, ou melhor, uma fonte energética desgastável nas façanhas empresariais.”


O magnífico, profundo e bem escrito livro O POVO BRASILEIRO tem ainda dois capítulos. No quarto Darcy Ribeiro percorre as entranhas da história do país para esmiuçar as principais características e façanhas do Brasil crioulo, do Brasil caboclo, do Brasil sertanejo, do Brasil caipira e dos Brasis sulinos (gaúchos, matutos e gringos). No último usa toda sua eloqüência e maestria para escarafunchar os destinos do país.




fonte: jornal ggn

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Heidegger e a questão da técnica


Heidegger é o filósofo que, em relação a Nietzsche e sua alardeada “superação da metafísica”, dá um passo aquém em relação a essa afirmação e procura fazer um cuidadoso  processamento crítico da racionalidade vigente em sua época. Para ele, o que podemos perceber, cada vez mais, é o caráter enigmático do ser humano – e o abismo que nos cerca. Nosso progresso, nosso télos, se não sofrer nenhuma espécie de desvio, será em direção ao ser-máquina. Entretanto, como seres humanos, somos entes aos quais não é permitido o próprio conhecimento – e isso pouco tem a ver com a tecnologia maquinística. Não sabemos o que é o homem, e mesmo que quiséssemos, não poderíamos descobri-lo. Para Heidegger, devemos nos contentar em saber que somos um signo indecifrável – mas poderíamos dizer, em contrapartida, que isso seria algo que nos “dá o que pensar”.  (Para conferir um papo sobre Friedrich Nietzsche - CLIQUE AQUI)

Em seu manuscrito Der Anklang, Heidegger afirma que o fato de as descobertas técnicas terem sido usadas tanto para a construção quanto para a destruição, criou a aparência segundo a qual a técnica estaria acima desse maniqueísmo entre bem e mal. Difundiu-se a ideia de que a técnica seria neutra, e seria o homem quem a converteria em maldição ou benção. Mas, segundo coloca Heidegger, o que é o homem e o que é a técnica? Afinal de contas, não seríamos nada além da produção técnica do que somos e do que não somos em nós mesmos? Ademais, a aparente neutralidade da técnica poderia servir como um incentivo para que o ser humano busque conquistar tecnicamente a natureza e organizar tecnicamente a história – para, dessa forma, criar uma instituição mundial que, fabricada pelo homem, assuma a prosperidade e o bem-estar de si próprio.  

Há algum tempo, a técnica, encarnada tanto no homem quanto na máquina, é o signo atual de nossa relação com o mundo e o modo como a sociedade contemporânea se articula. Nossa pretensão, ao longo da história, foi ver a técnica como fornecedora de bens e de serviços cada vez melhores e mais avançados, para aliviar o fardo de nossa existência, reduzir nosso sofrimento, aumentar nosso bem-estar e expandir os horizontes da vida humana. Heidegger acha que estamos próximos de nos apoderarmos da totalidade da Terra e sua atmosfera, e de obtermos assim, sob a forma de forças, o que está escondido no reino da natureza, submetendo o curso da história à planificação e à ordem de um governo terrestre.   

A principal questão que preocupava Heidegger era a questão do ser e seu destino no Ocidente. Tudo se resumiria ao ser. Para ele, somente o homem, chamado pela voz do ser, vivencia a mais sublime das experiências – ele é o ente que é. Heidegger nos ajuda a esclarecer com o que estamos comprometidos na era da técnica maquinística e os desafios que devemos enfrentar e vencer, se quisermos estabelecer uma nova relação com esse fenômeno.



fonte: puc edu

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Noam Chomsky | 8 livros para download


Noam Chomsky tornou-se um autor fundamental no que se refere à linguística moderna, é autor de importantes trabalhos sobre as propriedades matemáticas das linguagens formais, tendo seu nome associado à chamada Hierarquia de Chomsky. Seus trabalhos, combinando uma abordagem matemática dos fenômenos da linguagem com uma crítica do behaviorismo, nos quais a linguagem é conceitualizada como uma propriedade inata do cérebro/mente humanos, contribuem para a discussão da psicologia cognitiva, no domínio das ciências humanas. (Confira também um papo sobre "Amor Líquido", de Zygmunt Bauman - CLICANDO AQUI)

Segue abaixo a lista de obras autor disponíveis em PDF e, mais abaixo, em vermelho, o link para realizar o download dos livros:

As ideias de Chomsky | Autogestão hoje | Linguagem e mente | Mídia | O Lucro ou as Pessoas | O que realmente o Tio Sam quer | Os caminhos do poder | Reflexões sobre a linguagem

Para fazer o download das obras - CLIQUE AQUI


fonte: farofa filosófica

domingo, 22 de outubro de 2017

Norbert Elias e O Processo Civilizador


O ponto de partida do livro é entender as diferenças dos conceitos de civilização e cultura. Os dois não são universais e não são atemporais. Ambos os conceitos lidam com as realizações da sociedade, com a sua organização política, com sua estrutura econômica, com suas tecnologias e etc, mas há dois movimentos notáveis e contrários: cultura se refere a um plano intelectual, abstrato, enquanto civilização está ligada a um plano mais prático e concreto. Cultura, também, se refere à especificidade (a cultura de um povo ou de uma sociedade é uma cultura única e específica), já civilização se refere a um princípio de universalização, civilização é aquilo que todas as sociedades alcançariam num dado momento, é um movimento da “Humanidade”. Civilização é algo em comum a todas as sociedade – é o potencial dessas sociedades.

Estes conceitos, por mais difícil que seja imaginar, tiveram um momento de nascimento que localizou socialmente seus usos. Basicamente, essa sociogênese dos conceitos começa com a análise de Elias da burguesia alemã.

Civilização e Cultura

A época analisada é a da aristocracia de corte. Neste período, a burguesia alemã detinha força política, não conseguia cargos relevantes na administração do Estado e também não tinha acesso à sociedade de corte. (CONFIRA UM PAPO SOBRE CULTURA - CLICANDO AQUI

A sociedade de corte era composta por aqueles que participavam das rotinas da corte, assim como participam de seus eventos e se submetiam às suas regras. O que Elias análise com um enfoque poderoso são os “modos”. A etiqueta da corte. Os comportamentos e as relações que sua vigência têm.

A aristocracia alemã rejeitava a sua própria língua. A língua refinada era o francês e as cortes utilizam esta língua. Há um aspecto duplo: evitar as classes dominadas e estabelecer um princípio de distinção. A burguesia alemã, por sua vez, tentava aprender o idioma francês, na esperança de ter algum reconhecimento e conseguir alcançar posições mais privilegiadas na estrutura social. Entretanto, com todas as limitações que recaiam sobre esta classe, a única brecha encontrada foi a intelectual.

A burguesia alemã rejeitava a aristocracia de corte, rejeitava seus comportamentos “refinados”, mas sempre superficiais, não conseguia posições importantes na organização do Estado e não tinha nenhum poder político, entretanto, as universidades eram sua saída. Elias percebe que uma intelligentsia é formada na Alemanha tendo como núcleo os escritores, artistas, filósofos, poetas e etc e etc que saíram das fileiras burguesas. A rejeição à aristocracia de corte começa a se firmar institucionalmente com a formação de um corpo de intelectuais que reforçavam todo o campo cultural e intelectual do país e a termo cultura se firma como um termo que valoriza aquilo que é único. O termo cobre as estruturas econômicas, políticas, as invenções, as tecnologias, mas está sempre em uma esfera intelectual, em um profundidade de conhecimento e em um princípio de distinção. A “cultura” é o termo que a classe burguesa alemã usa para legitimar sua diferença imiscível com a aristocracia. É um termo de autoafirmação. Enquanto civilizado era o sujeito superficial, burro, mas controlado, culto era o sujeito do conhecimento, o detentor do saber.

Por sua vez, civilização tem um processo longo dentro das classes dominantes francesas. A mudança do termo é demarcada por Elias em transformações históricas que podem ser vistas nas passagens dos termos distintivos das classes dominantes de cortês, polido até civilizado. Estas transformações são demarcadas por novos padrões de refinamento e controle dos instintos. Não preciso dizer que Elias observa esta transformação como algo mais ou menos homogêneo por toda a Europa. Não necessariamente em todas as cortes, mas, pelo menos, no ideal que estas cortes trazem para o que deveria se tornar uma sociedade de corte.

Em um dado momento, um dado termo começa a ser espalhado para o restante da sociedade, após ser um símbolo de distinção das classes dominantes. Quando isso acontece, é hora de encontrar um novo símbolo de distinção. Para Elias, o fato dos comportamentos de consumo (como a etiqueta à mesa) ter sido notável se deve pela aristocracia de corte ser uma das classes dominantes mais ligadas ao consumo e menos ligada à produção. Com base nisso, como o processo civilizador teria como objeto os meios de produção? Isso só ocorreria com a tomada de poder plena da burguesia.

A aristocracia utiliza o termo de civilização exatamente para se afastar das classes dominadas, para se diferenciar destas classes. O termo não é neutro, mas exibe um passo além dentro do “caminho”, ou da história, da humanidade.

O processo

O interessante no estudo de Elias é que, tomando como objeto os variados tipos de comportamentos das sociedades de corte, tomando como objeto de análise os livros e manuais de comportamentos, de bons modos, ele percebe que, de um perspectiva histórica, de um ponto de vista a longo prazo, há um movimento de controle cada vez maior dos instintos. Esse é o processo civilizador. Um processo onde as estruturas emocionais incorporam controles instituais cada vez maiores e se modificam de acordo com as transformações que acontecem na própria sociedade.

É uma análise sociogenética e psicogenética daquilo que ele chama de processo civilizador, o processo de afastamento cada vez maior da “naturalidade”, ou, uma caminhada ao controle dos impulsos infindável.

Neste processo, por exemplo, Elias localiza historicamente a estrutura psicológica descrita por Freud. Ego, Id e Superego fazem parte de uma estrutura que só poderia realmente ter nascido em tempo de alto controle e repressão. Esta é uma interpretação da estrutura psíquica que faz sentido e que explica os indivíduos da sociedade por ser uma estrutura que tem lugar cativo para as contradições cada vez maiores de impulso, de gozo e de refinamento, de repressão, de controle.

A estrutura social e a estrutura de personalidade, ou estrutura psíquica, são resultados de uma inter-relação interminável entre elas próprias. Elias demonstra como determinadas práticas comuns em um dado momento da história se transformavam em práticas horrendas em outro e em práticas indescritíveis em nossa época.

Em exemplo curioso são as chamadas “funções corporais”. Uma das regras em um livro de etiqueta era “falar com alguém que está defecando é sinal de falta de educação. Ande pela pessoa como se ela não estivesse no local”. Entenda, se há uma regra para isso, então é muito lógico de que essa não era uma prática incomum. Entretanto, em nossa sociedade moderna [ou pós-moderna] nem mesmo se fala sobre este tipo de coisa.


Em relação às crianças, à sua educação, temos uma surpresa enorme em perceber que os hábitos das crianças foram se tornando mais rígidos com o aumento das demandas por controle e, em dados momentos, regras escritas para adultos já estavam tão enraizadas nos hábitos diários que eram somente escritas e impostas às crianças. A criança precisava incorporar um processo civilizador de séculos em somente alguns anos. Um processo que custou milhares de transformações precisava ser absorvido em um curto período de tempo. Isso não significa que crianças de outras épocas não precisavam incorporar nenhuma regra, mas o aumento das exigências de controle e repressão foi tão acentuado no período estudado que este acúmulo de regras já podia ser visto nas diferenças no tratamento das crianças, agora submetidas a regras que antes não eram nem imaginadas. Ao mesmo tempo, adultos já não “precisavam” destas regras. Já eram “naturais”.

Isso deixa também claro que as explicações médicas, racionalizadas e ultracientíficas sobre nossos atuais hábitos não são explicações irredutíveis. São, na verdade, explicações que acontecem depois da escolha dos hábitos vigentes, ou melhor, são explicações localizadas historicamente que legitimam um dado hábito completamente arbitrário. Um hábito que estabelece relações de dominação e hierarquiza a sociedade.


fonte: colunas tortas

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

1984


DO QUE TRATA?

Metáfora pessimista do futuro da humanidade dominada pelos regimes totalitários, o livro se passa no então remoto ano de 1984, quando o Estado domina a vida dos cidadãos. Winston é um funcionário que se revolta contra o regime, movido pelo amor a uma colega. Mas é preso e torturado e acaba desenvolvendo devoção cega ao governo.

QUEM ESCREVEU?

Nascido na Índia, então colônia da Inglaterra, George Orwell (1903-1950) se chamava Eric Arthur Blair. Foi voluntário na luta contra Franco na Espanha e um dos primeiros ocidentais simpatizantes da esquerda a se dar conta dos caminhos tomados pelo stalinismo, por isso dedicando seus últimos anos a denunciá-lo. Morreu pouco depois de ter seu romance publicado, tuberculoso e pobre.

POR QUE MUDOU A HUMANIDADE?

Denunciou o perigo das sociedades totalitárias, como a antiga União Soviética, e do crescente domínio dos governos na vida privada dos cidadãos, além de antever o poder da mídia no controle político do povo. Está no livro a famosa figura do Big Brother, o Grande Irmão onipresente, que tudo vê, tudo sabe, tudo conhece.



fonte: super abril

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Maquiavel | O príncipe em PDF para download


O florentino Nicolau Maquiavel (1469-1527) foi o secretário da República de Florença entre 1498 e 1512 e desempenhou diversas missões diplomáticas em diferentes cortes italianas e européias. Em 1512, foi encarcerado pelos Médici. Considerado um dos “criadores” da ciência política,  em O Príncipe (1513), Maquiavel discute a essência do poder político, sustentando que a sociedade não pode existir sem ordem – algo que o príncipe deve garantir mediante sua ação política…
(CONFIRA UM PAPO SOBRE O PENSAMENTO DE MAQUIAVEL - CLICANDO AQUI)

Distancio-me (…) dos métodos seguidos pelos demais e, sendo meu propósito escrever algo útil para quem ler, pareceu-me mais conveniente ir diretamente para a verdade da coisa do que para a representação imaginaria dela. Muitos imaginaram repúblicas e principados que jamais ninguém viu ou soube da existência. Porque há tanta distância entre como se vive e como se deveria viver, aquele que deixa de lado o que faz por aquilo que deveria fazer aprende antes sua ruína do que sua preservação. Porque um homem que queira ser sempre bom em todos os pontos, entre tantos que não o são, tecerá, necessariamente, sua ruína. Por tudo isso, é necessário, para um príncipe manter-se, que ele aprenda a poder ser mau e a usar ou não essa capacidade em função da necessidade.
Para fazer o download do livro – CLIQUE AQUI


fonte: farofa filosófica

domingo, 15 de outubro de 2017

Teoria Social em Anthony Giddens


Para Giddens  o indivíduo é um agente reflexivo. A reflexividade implica um posicionamento de cada um e uma co-presença. A sociedade é um conjunto de interesses entre cruzados. Um sistemas sociais é estendido como uma configuração sobre (lapsos) de tempo-espaço.

Giddens propõe observar com maior detalhe o conceito de Sociedade, considerado por muitos como a principal unidade de análise nas ciências sociais.

Revisão do conceito de Sociedade

Giddens rejeita o ponto de vista da sociologia estrutural, que considera o conceito de sociedade ligado de modo direto ao de coerção.

Segundo ele, as propriedades estruturais dos sistemas sociais seriam simultaneamente facilitadoras e coercivas. (Confira um papo sobre "Amor Líquido" - CLICANDO AQUI

Sociedades, sistemas sociais

O autor traz à tona dois sentidos atribuídos à sociedade no uso comum:

Sociedade enquanto conotação generalizada de interação ou associação social.
Sociedade enquanto uma unidade, com fronteiras que distinguem de outras.
Para Giddens, as totalidades sociais nem sempre possuem fronteiras claramente demarcadas, embora estejam tipicamente associadas a formas definidas de local. A resistência a esses pressupostos pode ser facilitada se reconhecermos que as totalidades sociais são encontradas dentro do contexto de sistemas intersociais distribuídos ao longo do tempo-espaço.

Para Giddens, todas as sociedades seriam sistemas sociais e, ao mesmo tempo, constituídas pela interseção de múltiplos sistemas sociais. Estes podem ser totalmente ‘internos’ às sociedades ou transpor as linhas divisórias entre o ‘interior’ e o ‘exterior’, formando uma diversidade de possíveis modos de conexão entre totalidades sociais e sistemas intersociais.

As sociedades, então, são sistemas sociais constituídos por uma série de outras relações sistêmicas, nas quais estão inseridas. Logo, a primeira e mais básica característica de uma sociedade seria um “aglomerado de instituições” global especificável através do tempo e do espaço. Outras características são:

Uma associação entre o sistema social e um local ou território específico. Os locais ocupados por uma sociedade não são necessariamente áreas fixas. As sociedades nômades erram em percursos tempo-espaço de tipos variáveis.
A existência de elementos normativos que envolvem a pretensão de legítima ocupação do local. Os modos e estilos de tais pretensões de legitimidade podem, é claro, ser de muitos tipos e ser contestados em maior ou menor grau.
A preponderância, entre os membros da sociedade, de sentimentos de que possuam alguma identidade comum, como quer que esta se expresse ou se revele. Esses sentimentos podem ser manifestos tanto na consciência prática quanto na consciência discursiva e não pressupõem um “consenso de valor”. Os indivíduos podem estar cônscios de pertencer a uma coletividade determinada sem concordar em que isso seja necessariamente correto e apropriado.
Giddens traz exemplos como o caso da China que, em determinados períodos de sua história, colocou diversos grupos etnicamente distintos no sul do país como parte de uma ‘sociedade chinesa’.

A regionalização de amplo espectro não deveria ser tratada como simplesmente composta de relações agregadas entre “sociedades”. Esse ponto de vista possui alguma validade quando aplicado ao mundo moderno de nações-Estados internamente centralizados, mas não quando se fala de eras anteriores.

Estrutura e coerção: Durkheim e outros

Neste tópico, Giddens realiza críticas à grande parte da sociologia estrutural, de Durkheim em diante, que se inspiraram na ideia de que as propriedades estruturais da sociedade formam influências coercivas sobre a ação.

A teoria da estruturação contrasta com essa concepção, pois se baseia na proposição de que a estrutura é sempre tanto facilitadora quanto coerciva, em virtude da relação inerente entre estrutura e agência.

Giddens argumenta que a teoria da estruturação não minimiza, de maneira nenhuma, a importância dos aspectos coercivos da estrutura. Contudo, a ‘coerção’ não pode ser considerada a única qualidade definidora de uma ‘estrutura’. Na teoria da estruturação, a ‘estrutura’ foi concebida como uma propriedade dos sistemas sociais, ‘contida’ em práticas reproduzidas e inseridas no tempo e no espaço. Os sistemas sociais, por sua vez, estão organizados hierárquica e lateralmente dentro de totalidades sociais, cujas instituições formam ‘conjuntos articulados’.

Ainda sobre a crítica à visão da sociologia estrutural, Giddens mostra como Durkheim associa coerção através da observação de que a Longue durée de instituições tanto precede quanto ultrapassa as vidas dos indivíduos nascidos em uma determinada sociedade. Em seus primeiros escritos, Durkheim enfatizou os elementos coercivos da socialização, mas, depois, ele passou a perceber com clareza cada vez maior que a socialização funde a coerção com a facilitação.

Isso é demonstrado no caso da aprendizagem da primeira língua. Ninguém “escolhe” a sua língua pátria, embora aprender a fala-la envolva elementos definitivos de submissão. Como qualquer língua cerceia o pensamento (e a ação) no sentido de que pressupõe uma série de propriedades articuladas e governadas por regras, o processo de aprendizagem linguística fixa limites à cognição e à atividade. Mas, na mesma ordem de ideias, a aprendizagem de uma língua expande imensamente as capacidades cognitivas e práticas do indivíduo.

Com isso, Giddens aponta que as totalidades sociais não só preexistem e sobrevivem aos indivíduos, mas também se expandem no tempo-espaço. Nesse sentido, propriedades estruturais dos sistemas sociais são certamente exteriores às atividades do indivíduo.

As sociedades humanas, ou sistemas sociais, não existiriam, em absoluto, sem a agência humana. Mas não se trata de que os agentes, ou autores, criam sistemas sociais. Eles os reproduzem ou transformam, refazendo o que já está feito na continuidade da práxis.

Quanto mais as instituições se fixam com firmeza no tempo e espaço, mais elas resistem à manipulação ou mudanças realizadas pelo agente individual. Esse significado de coerção também está acoplado à facilitação. O distanciamento tempo-espaço fecha algumas possibilidades de experiência humana ao mesmo tempo em que abre outras.

Com isso, o âmbito de ação do indivíduo não é definido apenas externamente. Quando Durkheim liga externalidade e coerção, reforça uma concepção naturalista da ciência social – ou seja, quis buscar apoio para a ideia de que existem aspectos discerníveis da vida social governados por forças análogas às que operam no mundo material.

Giddens fecha o tópico apontando que as coerções são de importância essencial para a teoria da estruturação. Capacidade e restrições de acoplamento, dentro de cenários materiais definidos, criando possíveis formas de atividade para os seres humanos. Contudo, esse fenômeno também possui características facilitadoras de ação. Giddens fala que a tendência desses autores (sociologia estrutural) foi enxergar na coerção uma fonte causação, mais ou menos equivalente a operação de forças causais impessoais na natureza. Ou seja, o raio de “ação livre” dos agentes é restringido por forças externas que fixam limites. Ou seja, a coerção estrutural está ligada a um modelo de ciência natural (Causal).

Três sentidos de “coerção”

Neste tópico, Giddens considera o significado de coerção com respeito à coerção material e à associada a sanções, depois à estrutural.

– Coerção física, limitando as vidas sociais viáveis que as pessoas podem levar; Todo ser humano tem que defrontar com as coerções do corpo, seus meios de mobilidade e comunicação.
– Aspectos coercivos do poder são experimentados como sansões de vários tipos, indo desde a aplicação de força ou da violência ou a ameaça disso, até a expressão moderada de desaprovação.
– A coerção estrutural é descrita como a fixação de limites à gama de opções que um ator, ou pluralidade de aotes, tem acesso numa dada circunstância ou tipo de circunstância.
Coerção e reificação

A ‘reificação’ tem sido entendida de formas muito diversas na literatura da teoria social. Entre esses usos divergentes, três sentidos característicos podem ser mais comumente discernidos.

Um deles é um sentido animista, em que as relações sociais são atribuídas a características personificadas. (Exemplo do fetichismo da mercadoria – as produções humanas se apresentam como seres independentes dotados de vida e estabelecem relações com a raça humana).
Outro sentido no qual o termo reificação é empregado, refere-se as circunstâncias em que os fenômenos sociais tornam-se dotados de propriedades características de coisas, que eles, de fato, não possuem,
Finalmente o termo ‘reificação’ é usado, por vezes, para designar características das teorias sociais que tratamos conceitos como se fossem objetos a que se referiram, ao atribuir propriedades a esses conceitos.
O “modo reificado” deve ser considerado uma forma ou estilo de discurso, no qual as propriedades dos sistemas sociais são vistas como tendo a mesma fixidez pressupostas nas leis da natureza.

O conceito de princípios estruturais

Giddens inicia o tópico fazendo um apanhado do que foi abordado no capítulo. Segundo o autor:

A Coerção estrutural não se expressa em termos das implacáveis formas causais que os sociólogos estruturais têm em mente quando tanto enfatizam a associação de ‘estrutura’ com ‘coerção’.
As coerções estruturais não operam independentemente dos motivos e razões dos agentes para o que fazem. Não podem ser comparadas com o efeito de, por exemplo, um terremoto que destrói uma cidade e seus habitantes sem que eles possam fazer nada.
Os únicos objetos moventes em relações sociais humanas são os agentes individuais, que empregam recursos para fazer as coisas acontecerem intencionalmente ou não.
As propriedades estruturais de sistemas sociais não atuam ou “agem sobre” alguém como as forças da natureza, para “compelir” o indivíduo a se comportar de um modo particular.
Entretanto, existe uma serie de noções adicionais pertinentes à questão da “estrutura” em análise social, e elas requerem especial consideração. Examiná-las-ei abordando pela ordem as seguintes questões: como deve ser desenvolvido o conceito de “principio estrutural”? Que níveis de abstração podem ser distinguidos no estudo das propriedades estruturais de sistemas sociais? De que modo os diversos sistemas sociais se articulam dentro de totalidades sociais?

Estruturas, propriedades estruturais

O conceito de estrutura pode ser usado de um modo técnico e de um modo mais geral. Entendida como regras e recursos, a estrutura esta repetidamente subentendida na reprodução de sistemas sociais e é totalmente fundamental para a teoria da estruturação. Se usada de um modo mais impreciso, pode-se falar dela em referência as características institucionalizadas (propriedades estruturais) das sociedades. Em ambos os usos, “estrutura” é uma categoria genérica envolvida em cada um dos conceitos estruturais abaixo indicados:

1. principias estruturais: princípios de organização de totalidades sociais;

2. estruturas: conjuntos de regras e recursos envolvidos na articulação de sistemas sociais;

3. propriedades estruturais: características institucionalizadas dos sistemas sociais, estendendo-se ao longo do tempo/espaço.

A identificação de princípios estruturais, e suas conjunturas em sistemas intersociais, representa o nível mais abrangente de análise institucional. Quer dizer, análise desses princípios se refere a modos de diferenciação e articulação de instituições através do tempo-espaço de maior “profundidade”.

Giddens fecha o tópico discorrendo como o estudo de conjuntos estruturais, ou estruturas, envolve o isolamento de distintos “grupos” de relações de transformação/mediação implícitos na designação de princípios estruturais. Os conjuntos estruturais são formados pela mútua conversibilidade das regras e dos recursos envolvidos na reprodução social. As estruturas podem ser analiticamente distinguidas, segundo o autor, dentro de cada uma das três dimensões de estruturação, significação, legitimação e dominação, ou através de todas estas.

fonte: global heritages

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

A filosofia de Habermas

Em sua Dialética do Esclarecimento, os filósofos Adorno e Horkheimer, fundadores da chamada Escola de Frankfurt, criticaram a razão oriunda do Iluminismo, a qual, na época utilizada como meio de libertação, converteu-se em instrumento de dominação, uma vez que o mundo passou a ser administrado em nome da técnica: é o que chamavam razão instrumental, dirigida a fins.
Para esses filósofos, a razão instrumental teria, inclusive, atingido as obras de arte. A produção artística, longe de preservar sua “aura” e sua autonomia, passou a ser produzida e condicionada de acordo com uma lógica de mercado. A Indústria Cultural, nome usado por Adorno e Horkheimer, portanto, tornou as produções artísticas mercadorias como quaisquer outras. (PARA SABER MAIS - CLIQUE AQUI )
Para Habermas, Adorno e Horkheimer, confundiram um tipo particular de racionalização com a própria razão. A razão, assim, não pode ser reduzida à sua perversidade utilitária, uma vez que ela possui uma função comunicativa. Na estrutura da linguagem cotidiana, assim, já está embutida uma exigência de racionalidade. A linguagem é uma verdadeira forma de ação: o simples fato de falar implica, além de uma exigência de compreensão mútua, um ideal de exatidão e veracidade e uma sinceridade. A interação com a linguagem, assim, sustenta que os indivíduos partilhem um mundo objetivo, um mundo social e um mundo subjetivo – essa é a base de sua teoria da ação comunicativa.
Assim, Habermas reconcilia-se com a razão ocidental e propõe um verdadeiro salto paradigmático, buscando um conceito de racionalidade que seja ancorado nos processos de comunicação. Se existe uma racionalidade instrumental mediada pela economia e pelo poder, existe todo um agir comunicativo, que busca o entendimento e o assentimento entre sujeitos, tendo em vista uma ação comum, baseado na forma sem violência do discurso argumentativo. No diálogo – quando ninguém é “trapaceiro, nem um psicótico, nem um bêbado” –, cada ser se investe numa troca em que só contam os valores de razão, como reconhecimento, respeito e sinceridade.
Habermas visa a fundar uma “ética da discussão”: em vez de um sujeito buscar fazer valer uma lei universal, é preciso buscar uma discussão na qual as questões morais sejam objeto de debates, dando lugar a acordos. Uma norma ética, para ele, só é válida quando for objeto de uma livre discussão. Só o agir comunicativo, que tende ao entendimento entre os atores, pode ser a base ética de uma sociedade. Habermas foi acusado, por muitos, de “reformista”, pois, em vez de desesperar-se diante da democracia burguesa, levou a sério suas potencialidades.
Em suma, como diz Habermas, a ação comunicativa ocorre “sempre que as ações dos agentes envolvidos são coordenadas, não através de cálculos egocêntricos de sucesso, mas através de atos de alcançar o entendimento. Na ação comunicativa, os participantes não estão orientados primeiramente para o sucesso individual, eles buscam seus objetivos individuais respeitando a condição de que podem harmonizar seus planos de ação sobre as bases de uma definição comum de situação. Assim, a negociação da definição de situação é um elemento essencial do complemento interpretativo requerido pela ação comunicativa”.
fonte: abril educação

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Espinosa


Deus para Espinosa é o único motivo da existência de todas as coisas. Deus é a substância única e nenhuma outra realidade existe fora de Deus. Ele é a fonte única e Dele surgem todos os outros elementos. Deus existe em si e foi gerado por si, para existir ele não necessita de nenhuma outra realidade. A essência de Deus pressupõe a sua existência. A substância divina é infinita e não é limitada por nenhuma outra, ela é a causa de todas as coisas existentes, que por consequência são manifestações de Deus.
Assim sendo, nada existe fora de Deus, e tudo que existe é uma forma de Deus, não como uma criação sem regras ou espontânea, mas seguindo as leis da natureza e respeitando a possibilidade de agir com vontade própria.
Um dos propósitos de sua filosofia é esclarecer a identidade existente entre nossa mente e o conjunto de todas as coisas da natureza. Para ele essa identidade somente vai acontecer quando conhecermos a nós mesmos e conhecermos também a natureza. O conhecimento da natureza se dá quando entendemos a essência dos objetos ou da sua causa mais próxima. Verdadeiro será o conhecimento que estiver em harmonia e se adaptar à ideia do objeto.
O filósofo estudou o homem e sua condição política, religiosa e moral. Para ele o ser humano é desprovido de vontade, como tudo procede de Deus, tudo também é determinado por Ele. Nós nos julgamos livres porque temos consciência da nossa vontade e achamos que é ela que nos guia, mas quem determina essa vontade é Deus.
Para Espinosa não existe uma finalidade para a existência do homem e nem para a existência da natureza. Deus não criou as coisas para o uso dos homens, nem para agradá-los nem para que os homens agradem a Deus. Pensar que Deus criou as coisas com algum objetivo, como o de que os homens lhe agradem, é o mesmo que dizer que Deus tem necessidade do agradecimento dos homens, e isso é tornar Deus imperfeito. Na natureza tudo é perfeito, pois tudo vem de Deus e é parte dele. Seguindo esse raciocínio, Espinosa descarta a possibilidade da existência de milagres, pois se a natureza é divina e perfeita, qualquer mudança na natureza vai contra a perfeição divina. O milagre é simplesmente um acontecimento natural do qual não conhecemos as causas. Devemos estabelecer em nós um procedimento tal que nos faça admitir que as coisas sejam como são, nos mínimos detalhes, como tem que ser, são imprescindíveis e obrigatoriamente assim porque tem que ser assim.
Tudo o que existe tem propensão a se manter existindo como o que é e essa é a essência dos seres em geral. Nos homens esse instinto de conservação gera as emoções que são uma mistura desordenada das ideias. A alegria e a tristeza são as principais emoções, a alegria conserva e a tristeza deprecia o ser. O amor e o ódio ocorrem quando a alegria e a tristeza se ligam a algo externo ao sujeito.
Sobre o direito, Espinosa afirma que existe no mundo um ordenamento essencial, e dele vem o direito natural que tem por origem Deus. O direito natural é para o filósofo as normas que dirigem a natureza. As regras através das quais a natureza se ordena estendem-se até o limite do seu poder. Se o homem seguir as leis da natureza, estará seguindo também as leis de Deus. Se os homens seguirem as regras e ensinamentos recomendados pela razão, o direito natural irá se expressar através dessa razão, que é a natureza do homem. Em sociedade o Estado é o detentor do poder e do direito, mas se o Estado seguir a razão que é própria de cada um dos indivíduos que o compõe ele também estará seguindo o direito natural. O estado limita o poder dos indivíduos, mas não invalida o seu direito natural. O direito do Estado é limitado pelas leis da natureza.
A fé é submeter-se à vontade de Deus, fé é ter uma conduta de obediência. Os pontos básicos da doutrina religiosa que fundamentam a fé universal para Espinosa são os seguintes: 1 - Deus existe e é justo e misericordioso; 2 - Deus é único; 3 - Deus está em toda parte e conhece tudo; 4 - Deus domina tudo e faz tudo; 5 - Cultuar a Deus é ser justo, caridoso e amar o próximo; 6 - Quem viver desse modo será salvo, os outros não; 7 - Deus perdoa quem se arrepender. O objetivo da fé é a obediência, o objetivo da filosofia é a verdade.

fonte: só filosofia

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

5 filmes sobre Nietzsche


Friedrich Nietzsche (1844-1900) tornou-se um filósofo bastante popular, sua filosofia influenciou a obra de muitos filósofos e, atualmente é possível enxergar com certa clareza a forte influência que o filósofo alemão ainda exerce, para além da filosofia… No cinema não é diferente, sua presença também é sentida, talvez, mais do que qualquer outro filósofo. Neste sentido, o propósito desta lista é elencar alguns filmes em que podemos identificar a presença de certos elementos característicos de sua filosofia como, por exemplo, os conceitos de eterno retorno, vontade de potência/vontade de poder, ubermensch, entre outros.

1. Dias de Nietzsche em Turim (2011) | Júlio Bressane

Para assistir  ao filme – CLIQUE AQUI

O filme procura recriar o  período entre abril de 1888 e janeiro de 1889, em que o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) viveu na cidade de Turim, na Itália. Foi lá que Nietzsche escreveu alguns de seus textos mais conhecidos, como “Ecce Homo”, “Crepúsculo dos Ídolos” e “Os Ditirambos” e entregou-se totalmente às suas próprias ideias, envolvendo-se com a arte, a ciência e sua própria vida.

2. Quando Nietzsche chorou (2007) |  Pinchas Perry

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O filme é baseado no romance de Irvin Yalom e narra o encontro fictício entre o filósofo alemão Friedrich Nietzsche e o médico Josef Breuer, professor de Sigmund Freud. Nietzsche é ainda um filósofo desconhecido, pobre e com tendência suicidas. Breuer é procurado por Lou Salome, amiga de Nietzsche, com quem teve um relacionamento atribulado. Trata-se de uma oportunidade para conhecer melhor o pensamento e alguns posicionamentos de Friedrich Nietzsche pois, ainda que se trate de uma ficção o filme faz alusão a importantes eventos reais como, por exemplo, certas particularidades do relacionamento entre Nietzsche e Lou Salome, o episódio com o cavalo ao qual o próximo filme desta lista (Cavalo de Turim) também se refere, entre outros…

3. A fonte da vida (2006) | Darren Aronofsky

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Na Espanha do século 16, o navegador Tomas Creo parte para o Novo Mundo em busca da lendária árvore da vida. Nos tempos atuais a mulher do pesquisador Tommy Creo está morrendo de câncer, mas ele busca desesperadamente a cura que pode salvá-la. Uma terceira história une as duas primeiras: no século 26, o astronauta Tom finalmente consegue a resposta para as questões fundamentais da existência.

4. Cidadão Kane (1941) | Orson Welles


Dirigido por Orson Welles, o longa conta a ascensão de um mito da imprensa americana. De garoto pobre no interior a magnata de um império do jornalismo e da publicidade mundial. O filme é frequentemente apontado como a obra-prima de Orson Welles.

5. Clube da Luta (1999) | David Fincher

Para assistir ao filme - CLIQUE AQUI


Jack é um executivo jovem, trabalha como investigador de seguros, mora confortavelmente, mas ele está cada vez mais insatisfeito com sua vida medíocre. Para piorar ele está enfrentando uma terrível crise de insônia, até que encontra uma cura inusitada para o sua falta de sono ao frequentar grupos de auto-ajuda. Nesses encontros ele passa a conviver com pessoas problemáticas como  Marla Singer e a conhecer estranhos como Tyler Durden . Misterioso e cheio de ideias, Tyler cria com Jack um grupo secreto que se encontra para extravasar suas angústias e tensões através de violentos combates corporais.

fonte: farofa filosófica

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Slavoj Zizek – O Guia pervertido da ideologia


O documentário procura analisar cenas e enredos de filmes, discutindo as formas e mecanismos de propagação ideológica. A ideologia vigente é a do consumismo, do capitalismo exacerbado, capaz de destruir o próprio planeta a fim de manter o fluxo de capitais e a aquisição de lucro. Entretanto, revela-se o paradoxo: somos livres para consumir, ou será que nossa liberdade de fato serve ao interesse do capital, o que faz com que esta liberdade não passe de ilusão criada e mantida pelo capital para que continuemos sendo escravos de uma ideologia, sem que a questionemos, sem que percebamos sua ação?

Para ver o documentário – CLIQUE AQUI

terça-feira, 25 de julho de 2017

A sociologia de Durkheim



A sociologia como uma ciência

O filósofo Augusto Comte (1798-1857) criou o termo "sociologia" a partir da organização do curso de Filosofia Positiva em 1839. Ele acreditava na superioridade da ciência e no seu poder de explicação dos fenômenos de maneira desprendida da religiosidade, como era comum se pensar naquela época.

Herdeiro do positivismo de Augusto Comte, Durkheim acreditava que os acontecimentos sociais poderiam ser observados como coisas (objetos), pois assim seria mais fácil estudá-los. ele propôs regras de observação e de procedimentos de investigação que fizessem com que a Sociologia fosse mais "científica". por isso, muitos sociólogos o consideram como o verdadeiro fundador dessa área de conhecimento.

Durkheim pregava a objetividade na análise dos fatos sociais. para ele, ao analisar uma sociedade, o pesquisador deve manter certa distância de seu objeto, ocorrendo com isso a neutralidade científica. Assim, ele deve perder o olhar subjetivo com relação aos fatos e, a partir disso, mensurar a realidade social em questão.

Segundo Durkheim, o sociólogo deve ter instrumentos para o desenvolvimento de seu trabalho a integração de análises quantitativas e qualitativas, complementados com observação, mensuração e interpretação.

Os fatos sociais

Para Durkheim, o objeto de estudo de um sociólogo é o que ele chamou de fato social. Fato social é tudo o que é coletivo, exterior ao indivíduo e coercitivo. Eles têm existência própria e não dependem daquilo que um indivíduo faz em particular.

Ele atribui três características que marcam os fatos sociais. É a partir desses elementos que a sociedade impõe sobre o indivíduo um padrão de comportamento. Um fato que reúna essas características é denominado social e pode ser estudado pela Sociologia.

Por exemplo, a grande maioria das pessoas pensa em casar e ter uma família. então podemos dizer que o casamento e a constituição de uma família são fatos coletivos ou gerais, pois existem pela vontade da maioria de um grupo ou de uma sociedade.

Veja as três características dos fatos sociais segundo Durkheim:

Coercitividade - a força exercida sobre os indivíduos, obrigando-os, através do constrangimento ou pressão, a se conformarem com as regras, normas e valores sociais vigentes. os indivíduos são "obrigados" a seguir o comportamento estabelecido pelo grupo.

Exterioridade - algo exterior ao indivíduo. As ações coletivas e individuais acontecem independentes da vontade individual, são consequências de outros acontecimentos sociais como o governo, a religião, a educação e a geografia.

Generalidade - a manifestação de um fenômeno que permeia toda a sociedade, ao longo da história e em diversos contextos.

O indivíduo é fruto de uma sociedade

Durkheim acredita que as ações das pessoas não acontecem por acaso. Apesar de existir uma consciência individual que dá a forma aos indivíduos pensarem e interpretarem a vida, o indivíduo seria fruto da sociedade, ou seja, suas ideias, condutas, concepções, valores e maneira de agir são influenciados pelo meio em que vive.

Para ele, a existência de uma sociedade só é possível a partir de um determinado grau de consenso entre seus membros constituintes. Durkheim acredita que dentro dos grupos sociais o que prevalece é a consciência coletiva, ou seja, o conjunto de crenças e sentimentos de uma mesma sociedade que serve para orientar a conduta de cada um de nós. portanto, os fenômenos individuais podem ser explicados a partir da coletividade.

Função social 

Para Durkheim, é impossível um indivíduo realizar todas as atividades de uma sociedade. As tecnologias e avanços estão em constante evolução, o que seria caracterizado pelo aumento dos papéis sociais ou funções. 

A divisão de trabalho (profissões e atividades) indicaria o “grau de evolução” de uma sociedade (primitiva ou complexa). As sociedades modernas seriam caracterizadas pela hiperfragmentação do trabalho. Nós dependemos de infinitas categorias de trabalhadores e a divisão do trabalho social acaba provocando uma crescente interdependência entre os indivíduos. 

Solidariedade mecânica e solidariedade orgânica

Uma Teoria Sociológica é a visão de realidade de um cientista social. Durkheim é considerado um dos fundadores do Funcionalismo, corrente que estuda a relação entre as funções exercidas por cada parte da sociedade para a manutenção do equilíbrio social. 

Durkheim entende sociedade como um corpo organizado, assim como a Biologia que compreende o corpo humano e todas suas partes em pleno funcionamento. A sociedade seria a soma de partes em operação e cumprindo suas funções. 

O funcionalismo entende que as sociedades organizam-se, necessariamente, como um todo orgânico, em que cada uma das suas instituições atua de modo a conferir coesão (unidade, estabilidade) ao conjunto. A sociedade seria um organismo em adaptação onde se busca encontrar soluções para a vida social. 

Para Durkheim, as sociedades se organizam sob tipos de solidariedade. Ele classificou as sociedades por solidariedade mecânica e por solidariedade orgânica.

As sociedades organizadas sob a forma de solidariedade mecânica seriam aquelas nas quais existiriam poucas identidades sociais. Nessas sociedades, os membros viveriam de maneira semelhante e, geralmente, ligados pela consciência coletiva e pela "força". Nesse tipo de sociedade existiria pouco espaço para individualidades.

Nas sociedade de solidariedade orgânica existem muitos papéis sociais. Diante da existência de uma maior diversidade de papéis, diminui o grau de controle sobre cada pessoa e os laços são sustentados pelo entendimento da função a ser desempenhada por cada um. Essa é uma das principais características da sociedade moderna, onde também emerge o egoísmo. [Para saber mais - CLIQUE AQUI]

fonte: vestibular uol